Cosmopolítica: uma ideia que vem inspirando antropólogos

“A ideia de cosmopolítica é algo que está juntando muito os ditos antropólogos da ciência e os antropólogos que trabalham com povos indígenas, não ocidentais de uma maneira geral”, conta Renato Sztutman, professor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, ele próprio um antropólogo que trabalha com povos indígenas. Essa palavra extensa, “cosmopolítica”, é um termo cunhado pela filósofa da ciência Isabelle Stengers a partir de estudos sobre a história da ciência. “A ideia de cosmopolítica entra, se eu entendo bem, como uma tentativa de politizar o fazer científico. Mas não é um politizar externo, você olhar de fora e ver quais são os interesses políticos em torno das teorias científicas. Acho que não é isso. Um pouco a ideia é mostrar como que fazer ciência é construir mundos”, explica Sztutman.

O curioso termo cunhado por Stengers está no centro do tema do dossiê da edição número 69 da Revista do IEB, que foi batizado como “Entreviver – desafios cosmopolíticos contemporâneos”. Os artigos partem de uma problematização feita pela filósofa da ciência e outros autores com quem ela dialoga: se a atividade humana tomou proporções geológicas com a instalação do Antropoceno, será que ainda podemos falar em uma divisão estrita entre o que é humano e o que é natureza?

Continuidade entre social e natural

Segundo Stelio Marras, professor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP e um dos organizadores do dossiê, a proposta do dossiê foi justamente reunir os colegas da antropologia para refletir sobre problemas como a mudança climática e os desastres ecológicos.

O rompimento da barragem com rejeitos de mineração da Samarco em Mariana (MG) em 2015 motivou artigo que faz parte do dossiê dessa Revista do IEB (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)
O rompimento da barragem com rejeitos de mineração da Samarco em Mariana (MG) em 2015 motivou artigo que faz parte do dossiê dessa Revista do IEB (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)
“Essa divisão entre natureza e cultura é uma espécie de divisão entre dois grande princípios de inteligibilidade do real. O natural de um lado e o social de outro. A natureza seria algo relativo ao mundo lá fora e a todos os outros seres e a cultura seria relativa aos humanos, em especial. Se nós das ciências humanas, por exemplo, antropólogos, temos como objeto o humano e esse objeto não se sustenta mais senão em continuidade e em relações muito íntimas (com o que seria não humano), através de vínculos com o mundo, então temos que entrar em searas que não seriam aquelas tradicionais das ciências humanas”, diz Marras, que neste semestre está ministrando uma disciplina de graduação que procura fazer uma ponte entre a antropologia e a biologia.

Marras explica que as referências a vínculos entre humanos e não humanos aparecem com frequência nas etnografias dos povos que ele chama de minoritários. “A atenção que a gente está sendo convidado a desenvolver agora é levar isso a sério e não purificar, não separar”, afirma ele.

Feitiço capitalista

Outro questionamento de Isabelle Stengers – que, aliás, assina um artigo na seção de documentação na edição atual da Revista do IEB – diz respeito à separação entre ciência e política. Nesse ponto, a advertência da autora aos antropólogos é contra o uso da tolerância de uma forma negativa. “O trabalho inteiro da Isabelle Stengers está mostrando como que a ciência sempre disputou com a magia, até que ela chegou num ponto, com o advento e a consolidação das ciências modernas, de desqualificação absoluta desses outros conhecimentos. Você desqualifica e, no máximo, tolera como uma coisa possível. E o que ela vai dizer é que, não, a gente tem que levar essas outras coisas a sério e (discutir) como que elas podem problematizar inclusive a ciência. Isso seria um ato político”, diz Sztutman.

O download da Revista do IEB está disponível no Portal de Revista da USP
O download da Revista do IEB está disponível no Portal de Revista da USP
Levar a sério uma afirmação que se coloca em conflito com a cosmovisão dos ocidentais modernos foi o esforço de Marina Vanzolini, professora do Departamento de Antropologia da FFLCH, no artigo que integra o dossiê. Durante o trabalho de campo que desenvolveu no doutorado junto aos Aweti, no Parque Indígena do Xingu, a antropóloga se deparou com frequência com relatos de que as pessoas brigavam mais por causa das “coisas do branco” na aldeia. Ela observou que, paralelamente, cresciam também as acusações de feitiçaria. Vanzolini recuperou essas observações da época do doutorado para articular uma nova reflexão sobre a entrada massiva de dinheiro e bens industrializados que os Aweti viveram nas últimas duas décadas, a partir do Bolsa Família e outros programas de transferência de renda.

“Toda briga séria naquele universo, isso parte da minha observação, da minha convivência, redunda em feitiço. Então, acusações de sovinice se misturam continuamente a acusações de enfeitiçamento, por exemplo”, diz a docente, para quem o entrelaçamento entre a entrada de dinheiro e bens e as acusações de feitiçaria não é uma forma equivocada de descrever um problema que afeta as relações sociais daquela comunidade, mas sim a maneira como os Aweti apontam os efeitos do capitalismo sobre suas relações sociais. “Eu queria escapar dessa armadilha que é partir do pressuposto de que eles estão enganados, partir do pressuposto de que o feitiço não existe. Eu estou querendo levar a sério o que eles dizem e pensar como a gente pode levar a sério essa afirmação de que as pessoas brigam mais por causa das coisas de branco e entender que essas brigas se misturam às acusações de feitiçaria, sem desfazer do pensamento e das interpretações deles”.

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