Tudo sobre febre amarela

O estado de São Paulo contabiliza 186 casos confirmados por febre amarela. Destes casos, 65 são vítimas fatais. Os números foram divulgados pela Secretaria de Estado de Saúde nesta sexta-feira (09) e indicam que 56,4% das infecções por febre amarela foram contraídas em Mairiporã, 15,8% em Atibaia e 2,7% em Amparo, desde 2017.

O alastramento da doença para a região da Baixada Santista também já era previsto pelos técnicos da secretaria. Marcos Boulos, professor sênior da Faculdade de Medicina da USP e coordenador de Controle de Doenças do estado de São Paulo, explicou em janeiro a Ciência USP que a principal prioridade da campanha de vacinação contra a febre amarela é imunizar todos os habitantes de áreas onde há registros de epizootias – surtos da doença entre uma comunidade de animais. A segunda prioridade é vacinar nas áreas onde é provável que o vírus venha a circular. Os municípios do litoral norte e da Baixada Santista faziam parte desse segundo grupo prioritário.

Confira nesta playlist o que os especialistas da USP dizem sobre a febre amarela:

Em todo o país, foram confirmados 353 casos da doença e 98 óbitos, entre 1º julho de 2017 e 6 de fevereiro deste ano. No mesmo período do ano passado, foram confirmados 509 casos e 159 óbitos. De acordo com informações do Ministério da Saúde, 423 casos ainda permanecem sob investigação.

Vírus ataca o fígado

A febre amarela ganhou o nome dos sintomas mais característicos causados pela “guerra” entre o vírus e o sistema imunológico do doente. Embora a maior parte das pessoas infectadas apresente apenas sintomas leves, como febre, dores musculares e dor de cabeça, em torno de 10% se tornam casos graves, que levam à destruição de células do fígado.
“O vírus vai para o fígado, que é onde ele vai se replicar. E ali acontece a guerra do nosso sistema imunológico contra o vírus, dentro do fígado. A tendência é que você começa a destruir células hepáticas e vai para uma hepatite. Às vezes, essa hepatite pode ser muito grave, sendo chamada de hepatite fulminante. Esses são os casos típicos e mais grave da febre amarela. Como o fígado é comprometido, a pessoa fica amarela, ictérica, como se fosse uma hepatite. Daí vem o nome”, conta Boulos, que há décadas estuda a doença.
Entre os casos graves de febre amarela, a mortalidade é alta. Cerca de metade dos pacientes morrem devido à falência do fígado.

Ciclo silvestre, ciclo urbano

O vírus da febre amarela é transmitido quando mosquitos de três espécies específicas picam humanos, macacos, alguns marsupiais e, acredita-se, também alguns roedores. Ele se espalha por dois ciclos: o silvestre e o urbano. No ciclo silvestre, os vetores são os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, que vivem nas matas. Já quando o vírus se espalha pelo meio urbano, o vetor é o Aedes aegypti.

Esses ciclos de transmissão são resultado de milhares de anos de evolução. Por isso, não se sabe se começa com os mamíferos ou com os mosquitos. “O que a gente tem de mais concreto é que os macacos do gênero Alouatta, que são os bugios, são mais suscetíveis até do que o ser humano. A febre amarela entre eles tem uma letalidade muito maior. Grande parte deles morrem, como está sendo relatado aqui no Horto Florestal (de São Paulo). Praticamente todas as famílias de bugios que viviam no Horto foram dizimadas. Então, eles servem de alerta para ocorrência de febre amarela, o que permite que a gente se antecipe e vacine os humanos”, explica o médico epidemiologista Expedito Luna, professor do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. “Mas como todos os bugios morrem, existe um ciclo oculto aí, provavelmente envolvendo outros animais, que a gente precisa elucidar. Porque se dependesse só dos bugios, o vírus também desapareceria”, completa.

O atual surto de febre amarela é diferente das epidemias que o Brasil teve de enfrentar no passado justamente porque todos os casos registrados até agora fizeram parte do ciclo silvestre. Segundo Marcos Boulos, os humanos entram no ciclo silvestre por acidente. “Quando os macacos morrem, os mosquitos descem da copa das árvores, em busca de sangue para produzir seus ovos”, diz ele.

”Se dependesse só dos bugios, o vírus também desapareceria.”

As epidemias que os médicos sanitaristas combateram na primeira metade do século 20 pertenciam ao ciclo urbano. Foram vencidas graças à erradicação do Aedes aegypti. Apesar da reintrodução do mosquito no país algumas décadas depois, não se registrou mais ciclo urbano da doença por aqui. O oposto do que aconteceu em Angola e na República Democrática do Congo em 2016, quando uma grande epidemia obrigou as autoridades a lançar uma campanha emergencial de vacinação.

Os especialistas se dividem quanto à possibilidade da febre amarela no Brasil, de ciclo silvestre, virar ciclo urbano. Boulos acha improvável que o atual ciclo silvestre se torne um ciclo urbano, pois o monitoramento dos serviços de saúde tem mostrado que o Aedes aegypti que hoje está disseminado pelo país não parece ser capaz de transmitir o vírus da febre amarela, embora transmita dengue, zika e chikungunya. Luna, por sua vez, acredita que possam vir a ser identificada a ocorrência do ciclo urbano em locais onde há alta densidade de Aedes aegypti. Com muitos mosquitos em uma pequena área, cresceria a probabilidade de infecção.

Vacinar é preciso

Quando a epidemia de febre amarela se alastrou por Angola e República Democrática do Congo em 2016, uma das estratégias sugeridas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para conter a doença foi o fracionamento da vacina. A ideia era vacinar emergencialmente o maior número possível de pessoas, mas não havia doses suficientes para toda a população potencialmente afetada. Por isso, o governo angolano optou por distribuir as doses fracionadas da vacina e a epidemia foi interrompida.

Fracionar a dose plena e, mesmo assim, obter proteção contra a doença é possível porque a vacina da febre amarela tem uma alta carga imunogênica. Segundo dados citados por Boulos, a dose plena possui 60 vezes mais antígeno do que seria necessário para proteger um adulto saudável. Assim, dividindo-se essa dose em cinco doses menores, é possível multiplicar o número de pessoas protegidas numa situação de epidemia.

Antes da epidemia de 2016 nos países africanos, a Fundação Oswaldo Cruz já estava estudando o uso da vacina fracionada. “Em 2008 foi feito um estudo com recrutas militares usando doses fracionadas da vacina. Quando foram vacinados, já se viu, e esse trabalho já foi até publicado nas revistas científicas, que eles responderam bem à vacina. Então, era uma possibilidade usar a dose fracionada”, comenta a médica clínica Marta Heloisa Lopes, responsável pelo Centro de Vacinação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Os bons resultados, no entanto, ainda deixavam uma dúvida: por quanto tempo dura a proteção da vacina fracionada? O passo seguinte dos pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz foi entrar novamente em contato com os militares que receberam a vacina fracionada para medir o nível de anticorpos presentes no sangue de cada um. Isso foi feito entre 2016 e 2017. “Percebeu-se que eles ainda tinham altos títulos de anticorpos presentes no sangue. Ou seja, a vacina protege por, pelo menos, cerca de 8 a 9 anos“, conta Marta.

Esses dados são preliminares. Embora já sejam do conhecimento da comunidade científica, ainda não foram publicados em uma revista especializada. Além disso, os estudos continuam.
“Pode ser que ela proteja mais. Essas pessoas vão continuar sendo acompanhadas e pode ser que no outro ano, no outro ano, a gente venha a saber que ela protege por mais tempo. Por enquanto, nós podemos falar que elas protegem por esse tempo, que é o tempo do estudo”, conclui a médica.

 

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