Livros que fazem nossa cabeça: O Mediterrâneo de Braudel

Fernand Braudel queria contar a história política da Espanha no século 16, mas acabou desvendando uma história muito mais abrangente. Foi assim que nasceu o clássico livro O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na época de Filipe II, publicado na França em 1949. O livro representou uma quebra de paradigma ao alterar o personagem principal: em vez de contar a história de do rei espanhol Filipe II, Braudel decidiu contar a história do Mar Mediterrâneo. Nesta playlist, o professor Lincoln Secco, do Departamento de História da USP, conta como a obra transformou as pesquisas dos historiadores ao apresentar uma nova forma de pensar no espaço e no tempo em que vivem os seres humanos.

“É uma tese totalmente inovadora porque o personagem central deixava de ser um personagem como o concebemos normalmente para se tornar o mar. Mas não as ‘planícies líquidas´, como ele dizia. O Mar Mediterrâneo como um conjunto de atividades econômicas, políticas, militares, de culturas, línguas. Uma economia-mundo”, diz Secco.

A descoberta da longa duração

Quando o personagem central deixou de ser uma pessoa e passou a ser uma “economia-mundo”, também mudou o tempo da história que Fernand Braudel pretendia contar. Assim, embora o tema central continue sendo o século 16, o autor fez incursões em outros períodos históricos, desde a Antiguidade até o século 20. Lincoln Secco lembra de algo que Braudel escreveu para justificar tamanho passeio pela história: “[Braudel diz que] os acontecimento isolados nada nos contavam. Eram como vagalumes numa noite escura, que acendem e apagam sem nunca iluminar totalmente o nosso passado. Era preciso ir além dos acontecimentos”.

Foi buscando além dos acontecimentos que o autor descobriu a longa duração. O conceito é a ideia fundamental do livro.

“É a ideia de que, para além dos fatos cotidianos que nós vivenciamos todos os dias, há estruturas mais profundas que são quase permanentes e que regem nossas vidas sem que nós tenhamos consciência disso. Então, é mais importante saber o que foi a Batalha de Lepanto, em 1571, ou é mais significativo conhecer o que era o Mar Mediterrâneo naquela época, o seu comercio, o meio ambiente, a vida cotidiana dos camponeses? O que afetava a maior parte da vida das pessoas?”, comenta o professor da USP.

Fernand Braudel encontrou culturas e modos de lidar com a terra que pouco mudaram desde a Antiguidade até a década de 1940, quando escreveu o livro. Um exemplo é o caso da transumância, um tipo de migração feita todos os anos em partes da Europa. Nela, os camponeses descem com seus rebanhos de animais para as planícies a fim de fugir do rigor do inverno nas terras altas, fazendo um movimento regular que articula a montanha e as terras mais baixas.

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