O distinto comportamento dos macacos-prego brasileiros

Os macacos-prego da Serra da Capivara fazem uso complexo de pedras e varetas em seu cotidiano. Até para namorar, eles contam com a ajuda dessas ferramentas. Mas não é só pra isso! Também para quebrar coco e comer, desentocar presas e outras coisas que os cientistas ainda não sabem o motivo. Tiago Falótico, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, é um dos cientistas que estudam o comportamento desses animais e elaborou uma trilogia de artigos científicos sobre as principais descobertas que fez.

Falótico explica os três principais usos das ferramentas entre os macacos-prego do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. Ao longo de dez anos de observações, o pesquisador pode constatar distinções entre o comportamento dos macacos do Serrado e da Caatinga, de um modo geral, e especificamente dos grupos que vivem na Serra da Capivara. Além de uma importante ferramenta de apoio para a alimentação, as pedras usadas pelos macacos-prego da Serra, por exemplo, geram lascas semelhante às lascas encontradas em sítios arqueológicos tidos como humanos. O pesquisador lembra da importância do “contexto arqueológico” na categorização desses achados, já que separados de fogueiras ou de outros indícios de manipulação humana, essas lascas podem perfeitamente revelar um “macacofato”, brinca Falótico, fazendo referência ao artefato – objeto (ou parte) elaborado por humanos.

Ainda um mistério

O vídeo mostra como os macacos mais velhos mantêm uma espécie de oficina onde, em cima de uma bigorna, manipulam pedras com o objetivo de fazer ferramentas. Com as ferramentas eles quebram cocos ou outros frutos, cavam tubérculos e desentocam presas como aranhas buraqueiras. Esta descoberta, de uso de pedras para cavar, foi descrita por Falótico em um artigo publicado na Scientific Reports, revista do grupo Nature. No entanto, ainda é um mistério o motivo pelo qual os macacos-prego da Serra da Capivara usam o pó das pedras que encontram pelo caminho. Além das inevitáveis lascas que geram ao baterem as pedras, a manipulação também cria pó. E desse pó, os pesquisadores já observaram pelo menos três usos: passam nos pelos, cheiram ou ingerem. “Ainda não sabemos exatamente para que serve aquele pó, porque ele não tem nenhuma propriedade bioquímica, nutricional ou sílica”, destaca Falótico. Embora ainda não tenha testado, ele acredita que o pó pode servir para limpar pelos e talvez tenha alguma ação antiparasitária.

Algumas descobertas

Apesar de favorecerem um ambiente de aprendizagem e disporem de muita paciência com os chamados macacos juvenis, diferenças bem acentuadas foram identificadas entre machos e fêmeas. Falótico observou que apenas os machos confeccionam e utilizam varetas como ferramentas de apoio na alimentação. “Isso não era esperado. Eu nunca vi uma fêmea usando varetas e é isso que estou investigando no meu pós-doc”, comenta. Outro comportamento aprendido e espalhado entre esses macacos é o uso das pedras em “display sexual”. Ou melhor, entre as macacas! Em seu cio, as fêmeas não desenvolvem nenhuma alteração física externa, por isso precisam atrair parceiros exclusivamente através do comportamento. A vocalização e diferentes expressões faciais eram a maneira tradicional de chamar a atenção dos machos. “Só que os macacos-prego machos não respondem imediatamente. Elas têm que ficar horas, às vezes, atrás deles”, explica o pesquisador. Em 2013, Falótico reportou, pela primeira vez, um comportamento inovador em uma macaca da Serra da Capivara, que logo se espalhou entre os grupos: jogar pedra nos machos para sinalizar que estão prontas para copular. De acordo com ele, mais da metade das fêmeas já foram vistas arremessando pedras nos macacos.

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