Professor emérito alerta para o problema dos linchamentos no Brasil

Dos 18 linchamentos ou tentativas que já foram notícia no Brasil em 2017, o mais recente aconteceu nessa segunda-feira (17): uma multidão espancou, amarrou e matou a tijoladas um suspeito de tentar roubar um mercadinho em Natal. O sociólogo José de Souza Martins estuda linchamentos há pelo menos 20 anos e explica que a vítima não precisa ser culpada de nenhum crime para ser alvo da multidão. Martins, que é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, falou sobre sua trajetória como pesquisador do tema em entrevista ao Ciência USP.

“O linchamento é uma modalidade de punição coletiva. Não existe linchamento de uma pessoa só linchando outra, nem duas, nem três. No linchamento há multidão. Pode ser uma grande multidão, pode ser uma pequena multidão. O que define a multidão é o comportamento dela”, explica. Segundo o professor emérito da FFLCH, esse comportamento se caracteriza por ser irracional, impulsivo e de duração temporária.

Os estudos de José de Souza Martins sobre linchamentos se diferenciam de pesquisas anteriores por darem conta da análise de um enorme número de casos. É que, ao longo dos anos, o sociólogo montou um vasto arquivo que compila notícias sobre linchamentos ou tentativas de linchamentos que ocorreram em todo o Brasil. O trabalho com fontes jornalísticas tem um motivo prático: como o linchamento não é uma categoria penal, os boletins de ocorrência não usam esse termo. Então, quem qualifica a violência como linchamento é a imprensa.

A partir do trabalho com seu arquivo, Martins pode constantar que não existe um perfil único das vítimas. “Qualquer um de nós pode ser vítima de linchamento. Eu acho que um bom alerta nesse sentido é o que aconteceu com aquela mãe de família no Guarujá”, afirma Martins, referindo-se ao assassinato de Fabiane Maria de Jesus, que em 2014 foi vítima de linchamento após circular pela internet uma notícia falsa sobre uma suposta sequestradora de crianças.

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