Barroco Cifrado: a arte indígena nas Missões Jesuíticas

Renata Martins procurou as produções artísticas das Missões Jesuíticas na Amazônia a partir da relação entre culturas europeia, indígena e africana. Esse processo, Martins chamou de “Barroco Cifrado”, nome também de seu projeto FAPESP como Jovem Pesquisadora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU). Em seu projeto, a pesquisadora e professora da FAU resgata o trabalho e o conhecimento indígena e a cultura africana nos projetos artísticos de jesuítas em diversos territórios brasileiros, entre eles no Pará e Salvador. Agora, ela conta que o desafio é desbravar o barroco cifrado na arquitetura paulistana: de grandes marcos históricos até festividades e pequenas igrejas da periferia de São Paulo.

A trajetória de Martins começa com sua tese de doutorado, intitulada “Tintas da Terra, Tintas do Reino: Arquitetura e Arte nas Missões Jesuíticas no Grão-Pará (1653-1759)”. A pesquisa investiga as contribuições plurais na arte do Barroco e do período colonial nas missões jesuíticas, sobretudo na Amazônia. Através da documentação e de viagens a aldeamentos, antigas oficinas e colégios jesuítas, a pesquisadora resgatou informações detalhadas sobre a autoria completa da produção artística que ainda sobrevive nas Igrejas e em alguns museus de arte sacra. De acordo com Martins, obras até então categorizadas como europeias teriam sido projetadas por arquitetos jesuítas e entalhadas diretamente por artesãos indígenas ou portugueses, seguindo a expertise de índios locais não apenas no entalhe, mas na escolha dos materiais. “Então a tese vai fazendo esse percurso, esse deslocamento da circulação dos jesuítas para chegar mais próximo das características dessas obras, pensando numa contribuição europeia ou das transferências de modelos da Europa e o que que poderia ter de uma carga local”, explica.

Da floresta à cidade

Em São Paulo e envolvendo um grupo de estudo grande e interdisciplinar, a tese dá origem ao projeto “Barroco Cifrado: pluralidade cultural na arte e na arquitetura das missões jesuíticas no território do estado de São Paulo (1549-1759)”. O objetivo é fundar uma nova linha de pesquisa, recuperando a tradição da arte e arquitetura coloniais, mas considerando o trabalho da arqueologia, inclusive subaquática. O grupo se reúne semanalmente na FAU e realiza visitas a locais como o Museu de Arte Sacra do Embu, sítios arqueológicos como as Ruínas Engenho dos Erasmos e igrejas e capelas que preservam a produção artística dos jesuítas, como a Igreja Matriz Nossa Senhora da Penha de França e a Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, em Itaquaquecetuba. O recorte temporal do projeto propõe estudar os aportes de diversas culturas na arte e na arquitetura nas Missões Jesuíticas desde o estabelecimento dos jesuítas em São Vicente até a expulsão da Companhia de Jesus da América Portuguesa, no atual território do Estado de São Paulo.

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