Seleção Natural na América

Uma variação em genes que sintetizam proteínas envolvidas na digestão de gorduras é mais frequente em povos nativos da América do que nos outros Continentes. Tábita Hünemeier, principal autora do artigo que descreve a descoberta e professora do Instituto de Biociências da USP, conta que começou analisando 700 mil mutações em genes de 53 populações indígenas em toda a América, além de Siberianos. “Estamos falando de uma frequência de 93% aqui e 30% na África”, comenta.

Em 2015, outro grupo de pesquisadores identificou forte presença dessa mutação entre os Inuítes, povo nativo da Groenlândia. Mas o grupo de Tábita também analisou o DNA fóssil de um paleoesquimó, e não encontrou a mutação. “Para uma mutação ser selecionada num continente inteiro, ela tem que ter acontecido muito antes da entrada no continente”, explica a pesquisadora.

A conclusão é a de que os indivíduos com essa mutação genética para consumo de gordura tiveram uma vantagem em relação aos demais. E que essa vantagem adaptativa é uma espécie de assinatura genética, espalhada entre todos os grupos nativos americanos estudados. Por isso, é possível fazer hipóteses sobre como se deu o povoamento da América e como o traço genético foi sendo selecionado e transmitido desde então.

Hoje, a presença da mutação entre americanos não é mais uma vantagem. No entanto, foi essa adaptação que garantiu sua sobrevivência e distribuição pela América, o último continente a ser povoado pelo Homo sapiens, há cerca de 25 mil anos.

Nesta entrevista, a pesquisadora detalha que genes são esses e de que maneira eles tornaram os primeiros americanos mais altos, mais robustos e mais aptos. Tábita também conta o que a ciência já sabe e o que não sabe sobre o caminho percorrido pela nossa espécie para chegar até aqui.

Apesar da dificuldade de acesso aos dados genômicos dos povos nativos, a questão da origem dos primeiros humanos a entrarem na América ainda é um mistério a ser decifrado. E esse estudo da USP mostra, pela primeira vez, uma marca genética selecionada no continente inteiro.

Desde o doutorado, Tábita trabalha na análise da diversidade biológica na América. O próximo passo de sua pesquisa é estudar a prevalência da ancestralidade indígena na população brasileira.

 

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