Nature publica pesquisa da USP sobre Zika

Pesquisadores da USP apresentaram dois tipos de experimentos que comprovam a relação entre zika e microcefalia: o primeiro comparou fetos de camundongos nascidos de fêmeas sem infecção por Zika com fetos nascidos de fêmeas infectadas com o Zika vírus brasileiro. Enquanto o peso médio dos fetos de camundongo sem infecção era de 3,4 gramas, a média dos infectados ficava em mock_nature_Jean1,4 grama. Medidas do crânio – comprimento e altura – apresentaram diminuição significativa no feto infectado pelo vírus em relação ao não infectado. Na comparação dos tecidos ao microscópio, foi
visível a diferença na espessura do córtex cerebral – a área mais externa do cérebro dos vertebrados. A análise dos tecidos dos fetos mostrou que, nos infectados, o córtex apresentava-se mais fino e com menor número de células do que no feto não infectado. Na comparação com o vírus que circula na África, o “brasileiro” se mostra mais letal para as células que, mais tarde no desenvolvimento, dariam origem à variedade que compõe o cérebro. O Núcleo de Divulgação Científica preparou uma playlist com entrevistas envolvendo os pesquisadores que lideraram os dois tipos experimentos: in vivo e in vitro.

Patrícia Beltrão Braga, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia e da Escola de Artes, Ciências e Humanidades, usou células-tronco humanas para revelar como o vírus Zika que circula no Brasil danifica a formação e o desenvolvimento do cérebro. O grupo de Patrícia também fez um experimento com “minicérebros” utilizando células de chimpanzés. Na comparação entre a infecção pelos dois tipos de vírus da Zika (o brasileiro e o africano), a linhagem brasileira do vírus não se reproduziu nos organoides dos chimpanzés, diferentemente da linhagem africana. Isso demonstra, segundo o estudo, que a linhagem brasileira sofreu mudanças que a tornaram mais específica para interação com células do sistema nervoso humano.

O imunologista Jean Pierre S. Peron, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, conta como infectou duas linhagens de camundongos com perfis de resposta imune diferentes. Em uma dessas linhagens, a SJL, o vírus atravessou a placenta e matou as células que iriam formar o sistema nervoso dos filhotes. Já entre os animais C57 Black, a resposta contra vírus foi mais eficiente, evitando a passagem do vírus pela placenta. Os pesquisadores liderados por Jean também conseguiram monitorar quais regiões do sistema nervoso do feto continham o vírus.

A primeira autora do artigo, Fernanda Cugola, do Laboratório de Células-Tronco da FMVZ – USP, conta como os pesquisadores infectaram células com o vírus para investigar que alterações ele causava. Eles observaram que o zika diminuía as neuroesferas – um tipo de estrutura cultivada em laboratório que simula o estágio de desenvolvimento do sistema nervoso do feto humano nos primeiros três meses de gravidez.

Esse conjunto de análises permitiu concluir que a infecção pelo vírus da Zika do Brasil causa restrição de crescimento intrauterino nos camundongos e provoca morte de células cerebrais por autofagia e apoptose, com sinais de microcefalia e malformações no córtex cerebral que se assemelham aos dos recém-nascidos humanos. Confira o artigo científico (em inglês) na edição online da Revista Nature.

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