Cérebro escolhe alimentos calóricos para armazenar energia

Cientistas descobrem que é o alto teor calórico, e não a doçura, que faz as pessoas optarem por alimentos com açúcar. O estudo demonstrou que o cérebro de alguns animais vertebrados escolhe o consumo de alimentos calóricos, ainda que o sabor não seja tão agradável, buscando acumular energia. Além disso, o artigo revelou que diferentes circuitos neuronais estão envolvidos na identificação de sabor e nutrição. Para os pesquisadores, superar a compreensão incompleta sobre como as calorias modificam o valor de recompensa de substâncias doces, pode fornecer novas estratégias de redução da ingestão de açúcar. O artigo, publicado na edição on-line da revista Nature Neuroscience, contou com a participação do Instituto de Ciências Biomédicas da USP (ICB). 

“A principal contribuição deste estudo foi mostrar que no camundongo circuitos neurais diferentes são mobilizados pelo sabor doce e pelo valor nutritivo do açúcar. Foi observado ainda que o camundongo aceita ingerir uma solução pouco palatável (sucralose, à qual foi adicionada um composto amargo, denatônio) a fim de receber uma solução calórica (glicose infundida no estômago)”, diz Sara Joyce Shammah-Lagnado, neuroanatomista do Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB e co-autora do artigo.

Este vídeo, produzido pelos autores do estudo, mostra o experimento com camundongos e comprova que a ativação dos circuitos estriados pela ingestão de açúcar, com consequente liberação de dopamina, tem um efeito forte na ativação de circuitos motores de ingestão e mastigação. Dessa forma, evitar o consumo de açúcar é quase um contrasenso e justifica tomar uma coca-cola “zero” enquanto se come uma apetitosa rosquinha cheia de creme.

A cientista conta que analisou imagens dos tecidos dos animais e sugeriu possíveis circuitos neurais envolvidos nesse processo. “A liberação de dopamina [neurotransmissor associado ao prazer e à recompensa] pelo sistema meso-límbico, evocada pelo sabor doce, ativa o sistema estriado-pálido ventral que, possivelmente através de uma sinápse no hipotálamo lateral, mobiliza o centro gerador de programas oro-motores promovendo o ato de lamber, mastigar e deglutir”, explica.

Os circuitos neuronais da parte ventral do estriado cuidam da sensação de prazer ocasionada pelo sabor doce. E os neurônios da parte dorsal identificam o valor calórico e nutricional dos alimentos adocicados.

Por outro lado, a liberação de dopamina pelo sistema nigroestriatal, evocada pelo teor calórico, (no caso a presença de glicose no trato gastrointestinal) ativa o estriado dorsal, sendo a substância negra reticulata um dos seus principais alvos. “Evidências eletrofisiológicas sugerem que a substância negra reticulata responde preferencialmente a movimentos orofaciais e dados de nosso laboratório (Shammah-Lagnado et al., 1992) mostram que este território, por sua vez, se projeta para o centro gerador de programas oro-motores”, conta Sara. Assim, existem dois sistemas paralelos ativados pela liberação de dopamina, um que se origina no estriado ventral e o outro no estriado dorsal.

O estudo pode explicar por que, apesar da indústria de produtos diet e light com baixo teor calórico, é difícil perder e sobretudo manter o peso perdido: a ingestão de alimentos ricos em calorias é recompensadora, ou seja libera dopamina no estriado dorsal.

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