Cientistas descobrem novos subtipos de câncer do cérebro

Cerca de 10% dos pacientes que têm um glioma — o mais comum e mais agressivo tipo de tumor que surge no cérebro — progridem de forma diferente do previsto no diagnóstico. Há casos positivos, em que as pessoas sobrevivem por mais tempo que o esperado; e outros em que o tumor é mais grave que o estimado pelos médicos.

A partir desta constatação, cientistas de 22 instituições, incluindo da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), da USP, buscaram novas formas de diagnosticar e classificar esses cânceres. E chegaram a um painel com 7 subtipos de gliomas – mais específico que a classificação anterior, de quatro subtipos. As novas categorias poderão ser usadas para guiar o tratamento mais adequado a cada paciente (veja mais no vídeo abaixo).

O estudo foi publicado nesta quinta-feira na revista científica Cell, o mais importante periódico na área de biologia molecular, segundo o índice JCR, feito pela Thomsom Reuters, que mede o impacto dos artigos das revistas científicas.

 

Um novo ponto de vista

Tradicionalmente, os gliomas são classificados pela histopatologia, ou seja, pelas características físicas observadas em exames de imagem – como a ressonância magnética – e pela análise das células em microscópio. São definidos quatro graus, de acordo com a agressividade do câncer.

Um limite desse processo é que depende da experiência do médico patologista. Em um mesmo caso submetido a 10 patologistas, quatro médicos dariam diagnósticos diferentes, segundo o índice Kappa, que mede a reprodutibilidade dos resultados. Outro problema é que, mesmo com o acerto do patologista, muitos casos ainda têm desfecho imprevisto.

Como superar essas limitações? Dois elementos foram importantes para a pesquisa: investigar o maior número de amostras possível; e usar a ferramenta mais avançada para estudos dos cânceres atualmente – a análise molecular. Esta inclui olhar para os genes (a genética) e para os mecanismos que controlam os genes dentro das células (a epigenética). Assim, a barreira da histopatologia, que é a célula em si, foi ultrapassada.

Bancos de tumores

Diversas instituições de tratamento médico e de pesquisa constroem biobancos para armazenar amostras dos tumores retirados dos pacientes. Uma delas é a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, com um biobanco de 50 mil cânceres de tipos diferentes.  Carlos Gilberto Carlotti, diretor da faculdade, idealizou o projeto em 2000. Daniela Tirapelli, professora do departamento de Cirurgia e Anatomia, administra o local.

Em 2006, foi formado um consórcio mundial para agregar e disponibilizar as informações de bancos de diferentes países a pesquisadores. A iniciativa ganhou o nome de The Cancer Genome Atlas (TCGA), ou Atlas do Genoma do Câncer, e possibilitou levantar as 1.122 amostras de gliomas usadas no estudo. As amostras contêm, além de pedaços do tumor, as informações relativas aos pacientes, como idade, tempo de diagnóstico, tratamento e tempo de sobrevida.

Análise molecular

Os pesquisadores estudaram principalmente cinco aspectos das células de câncer.

  • O comprimento do telômero – telômero é a parte final dos cromossomos, que serve para proteger o material genético de ser perdido quando a célula se divide. O telômero tende a encurtar conforme há mais divisões celulares e, portanto, conforme envelhecemos. Na pesquisa, o tamanho do telômero não teve relação direta com a progressão do câncer no paciente, portanto não foi um bom classificador para o tipo de glioma.
  • A codeleção do cromossomo 1p19q (codel) – quando as células se dividem, os braços de alguns cromossomos podem trocar de lugar. Neste caso, os cromossomos 1 e 19 trocam seus braços p e q, resultando em um cromossomo 1p19q (com o braço p do cromossomo 1 e o braço q do cromossomo 19). Em seguida, esse cromossomo é perdido. Esse fenômeno é a codeleção do cromossomo 1p19q e foi característica de pacientes que tiveram um prognóstico melhor.
  • O número de cópias de cromossomos – em divisões da célula, é possível acontecer a duplicação extra de alguns cromossomos – ou de partes deles. Essa variação no número de cópias pode ser indicativo de células cancerígenas. Mas não foi suficiente para classificar todos os tumores entre mais ou menos agressivos.
  • A mutação no gene IDH1 – o gene IDH1 contém a informação para fabricar uma enzima envolvida na produção de energia nas células. Pacientes com mutação no gene IDH1 foram associados a uma melhor sobrevida.
  • A metilação de DNA – a metilação de DNA é um dos mecanismos químicos que “liga” ou “desliga” um gene. Aqui ocorreu uma surpresa para os pesquisadores: o nível de metilação do DNA nos tumores indicou com precisão o prognóstico dos pacientes. Foi a metilação de DNA que permitiu reclassificar os gliomas.

União de esforços

A pesquisa envolveu 46 cientistas, de 22 instituições, em seis países. Do Brasil, foi liderada por Houtan Noushmehr, coordenador do laboratório OMICs, da FMRP. Outros autores-sênior foram Antonio Iavarone, professor de neurologia da Universidade de Columbia, em Nova York (EUA) e Roel Verhaak, professor de bioinformática do Instituto MD Anderson, no Texas (EUA).

Entre os autores principais estão Tathiane Malta, pós-doutoranda, e Thais Sabedot, mestre em bioinformática, ambas do laboratório Omics. Elas fizeram a análise da metilação de DNA desses tumores. Luciano Neder, professor do departamento de patologia, também é autor do artigo.

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