Decapitação mais antiga das Américas ocorreu no Brasil

Estudo publicado na Revista PlosOne sugere que o crânio estaria relacionado a um ritual e pode desvendar mais características do chamado Povo de Luzia

A descoberta, denominada “sepultamento 26”, é resultado de inúmeras expedições ao sítio arqueológico da Lapa do Santo, em Lagoa Santa. O grupo de pesquisadores explora o local desde 2001, por meio do projeto Origens, coordenado pelo paleoantropólogo Walter Alves Neves, do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP e um dos co-autores do artigo. A partir de 2012, as escavações foram retomadas por André Strauss, pesquisador associado do laboratório, através de recursos do Instituto Max Plank, na Alemanha, onde faz doutorado. Até o momento, 37 sepultamentos já foram identificados na Lapa do Santo.

De acordo com Strauss, principal pesquisador do estudo, o crânio foi encontrado em 2007 e junto dele duas mãos decepadas cobrindo o rosto: a mão direita foi colocada sobre o lado esquerdo com os dedos ́apontando para o queixo e a mão esquerda sobre o lado direito com os dedos apontando para a testa. “É importante enfatizar que [o crânio] não foi simplesmente jogado dentro da cova. Teve toda uma preocupação de ter um arranjo estético, que foi intencionalmente estabelecido como parte desse ritual funerário”, destaca Strauss.

Representação esquemática do Sepultamento 26, da Lapa do Santo.
Representação esquemática do Sepultamento 26, da Lapa do Santo.

Rodrigo Elias Oliveira, também co-autor do artigo, é curador do material escavado na Lapa do Santo. De acordo com o pesquisador, já foram encontrados outros rituais funerários nesse sítio com cortes de partes anatômicas, em indivíduos de diferentes faixas etárias. Mas, para ele, há outras questões a serem respondidas sobre essa população, como quais eram as doenças mais comuns entre eles e quais alimentos faziam parte de sua dieta. “O que a gente sabe é que eles apresentam uma quantidade de cáries acima do esperado para uma população de caçadores-coletores” e lembra que as raízes e tubérculos encontrados no cerrado brasileiro têm uma grande quantidade de açúcar. “Poderia ser a causa dessas cáries. Mas ainda estamos no meio da pesquisa”, diz Oliveira.

Em entrevista ao Ciência USP, programa de rádio produzido pelo Núcleo de Divulgação Científica da USP, Walter Neves aponta que entre 11 mil e 7 mil anos atrás, a Lagoa Santa foi habitada por uma mesma população e conta que este achado pode contribuir para confirmação do modelo das duas migrações. De acordo com Neves, estes antigos habitantes faziam parte do mesmo grupo biológico e têm a mesma morfologia craniana da Luzia, o esqueleto humano mais antigo da América. “Vai ser difícil, mas se nós conseguirmos extrair DNA desses esqueletos do povo de Luzia, nós vamos poder testar o nosso modelo de ocupação da América”, afirma ele.

Modelo das duas migrações

Com base nos padrões da morfologia craniana, a teoria das duas migrações defende, desde 1989, que dois grupos distintos vieram do nordeste asiático para a América através do Estreito de Bering, em momentos diferentes da Era do Gelo: o povo de Luzia e os ancestrais dos ameríndios. Neste modelo, a primeira migração seria de povos com uma morfologia craniana muito parecida com o que se vê atualmente na África e na Austrália. Já a segunda população a chegar nas Américas seria similar aos asiáticos, como os atuais grupos indígenas. “Se eu estiver correto, a melhor amostra que nós temos desta primeira migração é exatamente de Lagoa Santa”, diz Neves.

Para Strauss, a análise de DNA pode ajudar a resolver uma das mais antigas divergências da arqueologia mundial: entender se a chegada do homem à América se deu pelas migrações de um ou dois grupos principais. “A verdade é que até hoje a gente não conseguiu uma resposta definitiva a isso e o DNA é uma ferramenta que dá uma resposta plena para essas questões de ancestralidade”, ressalta.

Artigo científico
The Oldest Case of Decapitation in the New World (Lapa do Santo, East-Central Brazil)

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